quinta-feira, 6 de abril de 2017

Origem

Ela tinha quatorze anos quando foi estuprada.
Nesse dia, ela voltava para casa quando apareceu um carro com alguns rostos conhecidos mandando ela entrar, ela correu, agarraram ela e a colocaram dentro do carro (...) depois  a deixaram no mesmo local.
Bem, naquela época nada era dito sobre "sexo"
A família era grande, três meninos e três meninas.
Ela não contou para ninguém, além da vergonha, havia o medo dos pais não acreditarem nela, por conhecerem o homem que tinha feito aquilo.
Ela era inocente e não sabia que estava grávida, quando a barriga cresceu, veio a humilhação.

Essa história afetou minha vida porque ela é a minha mãe.
Lembro dela me contando, que quando o pai dela descobriu, ele correu atrás dela de facão, e ela teve que passar a gravidez em um sítio de uma tia. Ela não tinha a menor estrutura emocional de ter um filho sobre aquelas condições e naquela idade. Só soube dessa história quando era maiorzinha. Até então, ninguém falava sobre sobre meu pai biológico, mesmo se eu insistisse.
Minha infância era incompleta, minha mãe casou quando eu era um bebê ainda, e ele foi ótimo pra mim, mas eu sabia que ele não era meu pai, mesmo chamando ele de pai. Eu era instável emocionalmente, me sentia injustiçada, meu irmão mais novo parecia ser melhor que eu, tão iluminado e desejado, ele tinha uma família formada, só dele. Você pode achar que uma criança não percebe isso, mas elas percebem e crescem com isso.
Guardava mágoa da minha mãe, porque ela me teve sem ter me desejado, embora existisse o respeito, por saber que ela nunca deixou me faltar nada e fazia de tudo por mim.
Até os meus 18 anos eu tinha o sentimento de que ela se importava comigo, mas não me amava, como se eu fosse um peso, uma responsabilidade. Era muito difícil lidar com a dor da rejeição. E mesmo que você tente se agarrar a seu orgulho não tem como: é a realidade da sua vida e você precisa aceitar.
 Hoje nossa relação é muito linda, somos guardiãs uma da outra, adquiri maturidade para entender o quanto isso foi danoso e o quanto deve ter sido difícil para ela ter que conviver com um fantasma.
 É visível que a ignorância gerou tudo isso.
Não sei se cabe a mim dizer que ela poderia ter escolhido interromper a gravidez, pois acredito que ela nem se quer sabia que isso era possível. Não, não estou sendo ingrata pela minha vida.
Meu desejo: Que a família tivesse dado o devido suporte e ajudado a pelo menos denunciar esse cara.
Sim, eu sei quem ele é, aliás, eu vi ele hoje, senti uma raiva que não sabia que era capaz de sentir, cheguei em casa devastada em saber que ele segue uma vida normal, com mulher e filho, enquanto nós tivemos que nos confrontar uma com a outra e com nós mesmas para poder passar por cima.
Quando eu estava na terceira série ele foi até a minha escola e conversou comigo, eu me lembro de como as palavras saiam fáceis e rápidas da boca dele, ele me dizia que queria me levar para passear, que eu podia morar com ele e que tudo que um dia ele tinha feito, tinha sido porque ele amava minha mãe e não era correspondido.
Cheguei em casa toda inocente, feliz, a boneca que ele me deu foi para o lixo e eu demorei muito tempo para entender porque aquele dia minha mãe chorou muito.

Obrigada por ter lutado pela nossa sobrevivência.

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