A tristeza me agarra
pela garganta. Os jornais na televisão falam só sobre desgraças e eu já vi
todos os filmes do mundo. Cataloguei todas as cores do meu quarto. Olho no
portão e vejo o vento sujo varrendo os calcanhares do mundo, jogando areia nos meus
olhos. Será que vai chover?
Eu cochilo no sofá
Ouço a canção que
Lana fez pra mim. Os vizinhos da rua cantam, Sacolas plásticas de supermercado
cruzam planando no esquadro da minha visão. A madrugada chega assobiando pra
mudar bruscamente o humor do dia. Corre-corre. Ouvi alguém gritando – olha o
temporal. Corri e fechei as janelas. Só que você entrou pela porta. Encharcado
até os ossos e a primeira peça de roupa, o chapéu grafite.
Seu olhar – vitrine
dos meus melhores dias. Fica eu digo. Ajuda-me matar o tempo até a luz voltar. Pelo
menos até a chuva acabar de cair. Deu agora na televisão que a cidade está
debaixo d’água, mandaram ninguém se mexer.
Pergunto: você vai
ficar porque está chovendo, ou está chovendo porque você vai ficar? Tanto faz.
Se eu bem te conheço você esta bêbado uma hora dessas e pensando tristeza, não há
mais mistério, tristeza é só que você carrega dentro do chapéu.
Acordo, e o corpo
suado de medo. Entro no banho e entendo que foi só sonho de uma madrugada mal
sucedida, eu não consigo lembrar de todo sonho, acabou? Olhei pra água caindo
no chão e há sangue contínuo, grunhidos de raiva e o amor escorrendo dos olhos.
Na frente do
computador e bebendo a maior xícara de café possível pra quem não toma café frequentemente,
interpreto teu texto me fazendo tua atriz e você me escreve:
- Você já bateu
recorde de permanência.
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